Rabo de Saia

Os factos aqui contidos são reais e qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência.

 

quarta-feira, abril 12, 2006

Ser mãe é ...

Beatriz com o Touss e a BabeSer mãe é lixado. E é uma ideia mais ou menos generalizada que os primeiros meses são os mais difíceis com as noites mal dormidas, as pilhas de fraldas, os biberões, as cólicas e por aí fora.

Pois eu estou convençida que se vai tornando mais difícil à medida que os anos passam. Um bebé é simples. Se chora está com fome. Ou tem a fralda suja. Ou tem sono. Se nenhuma das anteriores se confirmar, está doente. E se não estiver doente, está um cu de mimo.

Já uma pré-adolescente requer muito mais jogo de cintura. Quer saber tudo sobre sexo. Quer um cão. Quer um gato. Quer ver os Morangos com Açúcar. Quer saber porque me separei do pai dela. Exige comprar isto e aquilo. Convida constantemente amigas tão histéricas quanto ela para passar a noite. Mas, acima de tudo, acha que já é adulta e que ganhou já o direito à sua independência.

E entre momentos de raiva e outros de maior serenidade, a vida vai acontecendo e os putos vão-se criando.

Muitas vezes me questiono se sou uma boa mãe. Se devo continuar a ter filhos neste mundo minado de perigos e filho-da-putices. Não é por acaso que o nosso amigo Ry sugeriu já ao Tiago que, em caso de divórcio, ele poderia usar este blog para conseguir poder paternal não só da filha dele como da filha do outro. Eu não duvido.

Mas entre contas com saldos negativos, nervos em franja e mãos gretadas pelos pirexes de empadão para os meninos que vêm passar a noite, fica uma ideia muito clara: se daqui a umas boas dezenas de anos as ceias de Natal não acontecessem em torno de uma grande mesa recheada de filhos, netos, noras, genros e enteados, nada teria valido a pena.

quarta-feira, abril 05, 2006

Momento Gallo

Estou com os azeitesEstou com os azeites. Será eventualmente um side effect da chuva ou uma inevitabilidade genética mas, para mim, hoje é dia de esbofetear alguém.

Para início de conversa, esta merda de tempo faz-me inchar a barriga, ter comichão nas cicatrizes e dores nos ossinhos dos dedos dos pés. Depois é um castigo para secar seja o que for em casa. E as miúdas, hein? Passeiam onde?

Não posso ficar em casa que começo logo a inventar desculpas para marrar com alguém. De repente lembro-me:

- Dos amigos que já não são por isto ou por aquilo.
- Dos sabichões que acharam que não sou “marrying material”.
- Das exs do meu actual e a mania de “continuarem amigos”.
- Do meu ex.
- Da conta bancária e do gestor de conta que não ajuda.
- Da empregada do refeitório que me falou grosso na maternidade.

Para cada um deles um mimo:

- Amigos: puta que vos pariu a todos.
- Sabichões: ainda ontem fiz uma mega bacalhau com natas.
- Exs do meu marido: topo-vos à légua.
- Meu ex, deves-me anos de dedicação e uma avultada soma no banco.
- BES, o meu próximo crédito habitação vai ser com outro banco.
- Ucraniana, hás-de engasgar nessa argamassa nojenta que serves.

Por tudo isto, mai loguinho, vou tomar um banho de mimo. O pai vem-me buscar a casa. As meninas sossegam em casa dos avós. A mãe leva-me às compras e gasta dinheiro que eunão tenho para gastar. E é bom que o marido chegue cedo e com uma montanha de carícias e frases feitas alinhadas. Hoje até aceito um ramo de flores.

terça-feira, abril 04, 2006

... e depois

Tiagão e JoaninhaDepois da Joaninha ter nascido as coisas mudaram muito:

7:00 – toca o despertador, como sempre. Mando uns grunhidos para o lado para me certificar de que o Tiago acorda mesmo.

7:30 – o Tiago levanta-se. Não sei se diz alguma coisa mas sinto muitas vezes uma carícia desastrada de uma mão gigantesca.

8:30 – trazem-me uns cereais à cama.

8:45 – dão-me um beijo de despedida na cama e concorrem entre eles a ver quem dá o último. Fazem-se à estrada. Eu fico muito sossegadinha até a Joaninha decidir acordar, o que pode ser no minuto a seguir ou tão tarde quanto as 10:30.

Não faço ideia do que acontece entre as 7:30 e as 8:30 da manhã. Não sei se vão à padaria, se a Beatriz sai com os colarinhos direitos, se se esquecem da lancheira, se o Tiago vai de t-shirt ou fato, se o cão fez xixi na cozinha durante a noite. E não é que o mundo continua a girar?

segunda-feira, abril 03, 2006

Antes ...

Tiagão e Beatriz
7:00
– Levantava-me e abria as portadas do quarto para ir acordando o Tiago.

7:10 – Limpava um ou outro xixi que o cão fazia na cozinha para se vingar de não o termos deixado dormir no quarto da Beatriz.

7:15 – Tomava duche enquanto ia chamando o Tiago até ele aparecer macambúzio.

7:30 – Era a vez do Tiago tomar duche.

7:35 – Acordava a Beatriz devagar e com muito mimo (ela tem mau acordar), vistia-lhe o roupão e levava-a às cavalitas para a casa de banho.

7:40 – Sentava a Beatriz na sanita, punha-lhe a pasta de dentes na escova e enchia-lhe o copo de água. Penteava-lhe o cabelo e prendia-lho para que pudesse lavar a cara e os dentes sem comprometer a integridade dos seus longos cabelos cor de mel.

7:45 – O Tiago saia do duche (metade do tempo que lá estava, estava a dormir) e tomava posse do lavatório, expulsando a Beatriz, também ela a dormir em pé.

7:50 – A Beatriz vestia a farda que a aguardava em cima da cama. Precisava sempre de ajuda para endireitar os colarinhos da camisa, abotoar os sapatos ou escolher o penteado do dia.

7:55 – O Tiago perguntava por boxers lavados e acabava por ir buscar um par à corda da roupa ou ao cesto da roupa para passar. Depois vestia-se e resmungava se era dia de levar fato e gravata.

Eu também gosto mais de o ver de calças de ganga e t-shirt. Para já porque está claramente mais feliz. O Tiago é, para mim, um “lembrete” diário e higiénico de que a vida é feita de coisas pequenas e simples.

8:00 – O Tiago saia para passear o cão e comprar pão fresco.

A D. Maria – a padeira – gosta muito do “franjinhas” (é assim que ela chama ao nosso cão sem nunca querer saber como é que ele se chama realmente), que espera educadamente à porta enquanto o dono entra para levantar as “seis carcaças do costume”.

8:15 – A Beatriz tratava dos animais: dava comida à tartaruga, limpava a areia da gata, mudava a água e a ração dos comedouros. Eu ia pondo a mesa do pequeno-almoço e dando os últimos retoques na lancheira da Beatriz, enquanto ela reclamava alterações de última hora na ementa.

8:30 – Sentávamo-nos finalmente a tomar o pequeno-almoço. O Tiago barrava manteiga nos pãezinhos. Eu punha açúcar nas canecas. A Beatriz tentava, sem sucesso, levantar questões profundas de conversa como a morte, a caridade ou as relações humanas. Tanto eu como o Tiago íamos lembrando em tom mais ou menos impaciente, dependendo dos dias, de que ainda não tocou na comida.

Lá fora ouvimos os homens das obras vociferar entre eles em crioulo, a azáfama da substituição dos carros dos moradores por os dos que ali trabalham. Ás vezes sinto o aroma longínquo – mas nem por isso menos incomodativo – de um cigarro ou outro. Incomoda-me especialmente quando se trata de SG Filtro ou SG Gigante.

8:45 – Despediamo-nos várias vezes à porta enquanto eu me certificava de que nenhum esquece nada em casa.
Parecemos uns cromos dos “Dias Felizes” enquanto nos despedimos, cruzando beijos e desejos de um bom dia. O Tiago sai sempre com a Beatriz de sobrolho franzido fazendo contas ao lugar onde terá estacionado o carro desta vez. A Beatriz volta sempre atrás para vir buscar um boneco e às vezes consegue levar a dela avante.

9:00 – Eu levantava a mesa, deixava um recado à empregada, punha mais uma máquina de roupa a lavar, acabava de me embonecar e arrancava para o trabalho.