Rabo de Saia

Os factos aqui contidos são reais e qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência.

 

sexta-feira, junho 23, 2006

Quanto mais prima, mais se lhe rima

são trinta e poucos
As rimas com “ar”
São fáceis de rimar
Mas “prima” não rima com “ar”
Por isso, vou arriscar.

Fala alto, muito alto
Com o seu sotaque nortenho
Entre a excitação e o sobressalto
Não sei se vou, não sei se venho

Poço de charme e compostura
Ela é linda de morrer
Digam lá se esta figura
Não é digna de se conhecer

De um mar de sobrinhos
Vive sempre rodeada
Ela não é mais
Que uma tia babada

Quer saber, quer dizer
Quer fazer e acontecer
Parabéns prima João
Do fundo do coração

Civilização sem Riso

Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África.
Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso, como o desejo de reinar e os trabalhos sangrentos em que se envolveu para o satisfazer mataram o sono de Lady MacBeth.
(...)
Este pobre homem de acção, que todas as manhãs, ao acordar, sente dentro em si acordar também o amargo cuidado do pão a adquirir, da situação social a manter, da concorrência a repelir, da «íngreme escada a trepar», poderá porventura afrontar o Sol com singela alegria? Não. Entre ele e o Sol está o negro cuidado, que lhe estende uma sombra na face, lhe mata nela, como a sombra sempre faz às flores, a flor de todo o riso.
Por outro lado o homem de pensamento que constantemente, pelo fatalismo da educação científica e crítica, busca as realidades através das aparências, e que no céu só vê uma complicada combinação de gases, e que na alma só descobre uma grosseira função de órgãos, e que sabe que porção de fosfato de cal entra em toda a lágrima, e que diante de dois olhos resplandecentes de amor pensa nos dois buracos da caveira que estão por trás, e que a todo o sacrifício heróico penetra logo o motivo egoísta, e que caminha sempre à procura da lei estável e eterna, e que a cada passo perde um sonho, e que por fim não sabe para onde vai, e nem mesmo sabe quem é - não pode ser senão um triste!
(...)
Tristeza dentro de si, tristeza fora de si. E quando por acaso alguém por profissão tradicional, como os palhaços, ou por contraste, ou pela saudade da antiga alegria e o desejo de a ressuscitar, procura fazer rir este mundo - só lhe consegue arrancar a tal casquinada curta, áspera, rangente, quase dolorosa, que parece resultar de cócegas feitas nos pés de um doente.
(...)
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado.
Eça de Queiroz, in '«A Decadência do Riso», Gazeta de Notícias (1891)'
um texto desecantado no Citador, por sugestão desta amiga.

O pedestal tal como ele é

o maior pedestal do mundoConsultei vários dicionários e todos definem “pedestal” como uma estrutura arquitectónica que eleva – uma estátua, por exemplo – ou uma posição de respeito, adoração, enfim, superioridade. Os dicionários estão errados.

O Pedestal é, na verdade, uma terra. Eu sei porque tenho conhecido muita gente de lá. E não pensem que os reconhecem. Eles andam por aí livremente, vão-se misturando de tal forma que já representam uma fatia significativa da população portuguesa.

Os brasileiros é que sabem. Eles traduzem “expert”, não como especialista em alguma coisa, mas como “esperto”. No Pedestal há uma estirpe específica desta raça: os "espertos do caralho".

Um natural do Pedestal pode ser seu vizinho, amigo, colega de trabalho ou até o amor da sua vida. E, às vezes, isso só se descobre, imagine-se, com o convívio ao longo dos anos.

É, por isso, importante estar atento a alguns sinais. Tendo eu uma longa experiência em lidar com os “naturais do Pedestal”, reuni umas dicas para que o que me aconteceu não aconteça a mais ninguém.

Assim, desconfie se estiver perante alguém que:
- lhe sugere que mude de corte de cabelo;
- lhe tente explicar porque é que o seu bébé está a chorar;
- inicie frases com “tu é que sabes mas ...”;
- diga mal de tudo e de todos menos de si próprio.

Não confunda os naturais do Pdestal com amigos bem intencionados e genuinamente preocupados. É fácil de distinguir. Estes últimos não se aborrecerão se decidir não seguir os seus “conselhos”.

Os naturais do Pedestal alimentam-se da boa educação dos outros e, não tendo vida própria, dedicam os seus tempos livres – e são muitos – a criticar e paternalizar os que têm. Por vezes conseguem mesmo fazê-los sentir diminuidos ou incapazes. Cuidado com isso.

Apesar de tudo, custa-me estar aqui a dizer mal duma terra que, em boa verdade, não conheço. Nunca lá fui, nem sei bem onde é mas ouvi dizer que fica num sítio alto mas frágil. E que deverá cair a qualquer momento.

quarta-feira, junho 21, 2006

Andale, andale

será que o vento sobe hoje?- Ai, desculpe lá o atraso
- Pois, já estavamos a achar que não vinha
- Pois ...
- Podia ao menos ter telefonado. É para isso que servem os telemóveis.
- Sim tem razão, mas é que ... bem ... comecei num emprego novo. E depois há as miúdas: a Joaninha tem de ir para a avó todas as manhãs e a Beatriz andou lá nos exames finais ...
- E ao menos correram bem?
- Sim, agora anda em ensaios para a festa de final de ano. Vai fazer de gota de água (sorriso de orgulho desproporcionado).
- Ok, ok, mas olhe que foi muito desagradável ter-se ausentado assim sem dizer nada.
- Peço desculpa mais uma vez. Mas não imagina como anda esta minha vida.
- Trabalho, filhos, máquinas de roupa, jantar ... isso é o dia-a-dia de 99,9% das mulheres portuguesas.
- Pois, mas eu tenho de deixar a pequena em oeiras.
- Yah, yah ...
- E já lhe disse que a Beatriz vai fazer de gotinha de água na festa de final de ano lá da escola?
- Sim, sim ... pois ...
- E o gato também comeu o meu trabalho de casa. Juro.
- Bem, mas vamos ao que interessa. Prognósticos para o jogo desta tarde.
- Portugal ganha ao México por 1 golo a 0.
- Acha? Pode ser que sim.
- Pois, e se quiser uma opinião mais bem informada, pode sempre ir aqui ao lado ao blog de um amigo meu que, apesar de benfiquista, percebe de futebol a potes.
- Ah, sim? Então o que é que estou aqui a perder tempo consigo?
- Pois não sei. Mas olhe, desculpe lá aquilo de há bocado.
- Tudo bem, mas que não se repita!